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16 agosto 2015

Nem tão santos, nem tão sãos: dois aniversariantes, e um milagre

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4 Comentários
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Nascido na França, na cidade de Montpellier. Foi reverenciado por sua atuação voluntária no combate à peste negra, especialmente na Itália. O contato com os portadores da peste lhe fez contrair a doença. Infectado, optou pelo isolamento. Foi salvo da fome por um cachorro que passou a alimentá-lo, levando em sua boca a comida roubada da mesa do seu dono, que um dia o seguiu e encontrou aquele por quem o cão inexplicavelmente se arriscara. Reestabelecido, retornou ao seu país natal, que se encontrava em guerra. Foi acusado equivocadamente de espionagem, condenado à prisão por seu tio, um juiz local. Faleceu na cadeia em 1379. Após sua morte, a cura do carcereiro foi considerada um milagre. O dia do seu falecimento passou então a ser tratado como a data da sua celebração.

Afinal, de quem estou falando? Roch de Montpellier. Ou Roque, em português. Rock, em inglês. Dia 16 de agosto, portanto, é o dia de São Roque.

Qualquer associação de sua história com a do santo católico seria mais fantasioso do que imaginar que teríamos um papa argentino. Mas ao pensarmos no seu nascimento, há 64 anos atrás, aquele pequeno bebê, se não pode resistir de ser arrancado do útero materno e apanhou para poder chorar, vingou-se gloriosamente ao jogar uma fralda suja na cara do seu padroeiro. Haveria outro dia para Marceleza nascer? Certamente, não. Chegou ao mundo assaltando São Roque em sua data, deixando-o sem manto, sem altar e sem roll. Tudo deliciosamente mais divertido em razão do seu ateísmo assumido.

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Mas como boas ideias e mulher gostosa são coisas pra se cobiçar, o raio cai duas vezes no mesmo lugar, o tridente cai duas vezes no colo do santo, e num mesmo 16 de agosto também nasce Robério Santana. Banhado na pia batismal de The Clash e Stiff Little Fingers.

Em 2015, o 16 de agosto ganha uma versão deluxe. Juntos na vida, juntos em parceria, juntos nos palcos, Marcelo e Robério, vão comemorar seus aniversários no meio da celebração dos 35 anos da sua grande criação, o Camisa de Vênus, viajando pelo país na turnê que vem lotando todos os locais por onde passa. Essa dupla foi responsável pela composição de Bete Morreu, Silvia, O Que Eu Tenho De Fazer, O País Do Futuro, Eu Vi O Futuro, e a minha preferida dessas quatro mãos, O Mal Que Habita Em Mim. Haja festa!

Nova e Santana, ao contrário dos habitualmente canonizados, não fizeram ninguém se levantar da cadeira de rodas, nem os cegos passaram a enxergar. Marceleza diz que transformou água em vinho, chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel. Roberinho não fica por baixo, e conta como deteve o furacão, enquanto tocava um blues em New Orleans.

Nascer no Brasil, nascer na Bahia, sobreviver ao Brasil, sobreviver à Bahia, criar uma banda de rock, fazer sucesso com uma banda de rock, conquistar respeito com uma banda de rock, fazer rock após os 60 anos, fazer rock com dignidade, ter verdadeiramente o que celebrar numa turnê comemorativa. Isso sim pode ser chamado de milagre. Embora digam por aí que eles sejam os verdadeiros responsáveis pelo milagre da multiplicação das piranhas, mas deve ser apenas mais um boato maldosamente espalhado por tia Cotinha.

Eu já falei muito sobre Mr. Nova. Nesse seu aniversário, vou dizer muito, em muito pouco. Marcelo Nova é o maior de todos. Não há ninguém aqui que se quer aproxime dele para abrirmos debate. Ele está lá, no pico do Evereste, com um copo de 16 anos nas mãos. O vento do Himalaia tentando desarrumar seu topete de rocker. Ele sorri para nós, e ri para si mesmo. Começa mais um ano atirando sua guitarra montanha abaixo, desencadeando uma nova avalanche. Just another day on the office.

Tive pouco contato com Robério Santana, mas me lembro bem do que ele me disse na primeira vez que nos falamos, há 20 anos atrás: “Capitão, lá na Bahia, nós só não cagamos na porta da igreja. O resto nós fizemos.” Embaixo do chapéu que sempre usa você não encontrará muitas notas, mas se surpreenderá com a quantidade de atalhos para o bom gosto. Marcelo com seu absurdo  nível de exigência, sempre colocou ao seu lado alguns dos melhores músicos do país, trabalhando em sua carreira solo. E mesmo com sua postura de constantemente mudar arranjos, todos os seus grandes baixistas, sem exceção, reproduziram fielmente frases de contrabaixo criadas por seu velho parceiro. Isso diz muito. Muitíssimo. Robério é um Paul Simonon corrompendo a capa de London Calling, ele não quebra o baixo no chão, quebra o Precision nas nossas cabeças. Seu fraseado são hematomas, dos quais há três décadas não conseguimos nos livrar, que exibimos por aí, como orgulhosas tatuagens.

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Em verdade vos digo, os dois aniversariantes do dia de são rock comeram o pão que o cachorro ladrão de comida cuspiu. Ao olhar pra eles, mais do que rugas e cabelos brancos, o que se vê são cicatrizes que a vida lhes impôs. E contra isso, não há antissinais que se possa usar. Os óculos escuros não mais oferecem proteção à eles próprios, protegem a nós que buscamos por seus olhos, impedindo de vermos as cicatrizes que 60 anos deixaram em suas almas.

Assim como Hendrix, Marcelo Nova e Robério Santana ouviram o trem chegando. Mas se você pensa que se trata do trem para o ponto final, está muito enganado. Estão embarcando num trem em festa, com lenha de sobra, às vezes desgovernado, sem destino. Embora com muita direção.

Luzes apagadas e velas acesas. É hora do parabéns.

Feliz aniversário, Marcelo Nova. Feliz aniversário, Robério Santana.

Vemos vocês em algum show do Camisa por aí.

4 Respostas

  1. ALEXANDRE SERRANO

    É isso aí, grande Capitão, trabalho exemplar e a altura do nosso mestres dos mestres e cia…, só para registrar o show este ano no Araújo Viana em Poa – RS jamais sairá das mentes de quem esteve lá, repetiria a dose até não mais poder!!!!

  2. Parabéns, ainda que atrasado, caríssimo Alexandre. Continuo ouvindo e assistindo os shows dessa banda maravilhosa, cara.

    Por gentileza, aproveitando a oportunidade gostaria de ter em mãos a discografia do programa de rádio Rock special, apresentado por Marcelo Nova.

    Existe essa possibilidade?

    Atenciosamente,
    Romevaldo Simões.

  3. Ernesto Ribeiro

    Pelas barbas do profeta, São Roque! Por essa você não esperava. Levar essa porrada de ironia de um ateu, como eu… E logo dois! Só no Rock & Roll. A única outra coincidência desta natureza foi com a primeira banda de rock só de garotas (menores de idade) The Runaways : as duas guitarristas Joan Jett e Lita Ford nasceram no mesmo dia 22 de setembro de 1958… ou quase isso.

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