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29 dezembro 2014

Resenha: o último concerto de 2014 foi show

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Marcelo Nova faria seu último show de 2014. Olhei para o relógio de bolso, coloquei a Melissa no berço e segui para sua casa, iríamos juntos para o Lord’s Rock Bar em São Caetano do Sul e não poderia me atrasar.

Pelo segundo show consecutivo que vou, Marceleza falou comigo sobre Leonard Cohen, poeta, romancista, compositor, e outros tantos predicados. Nos bastidores do primeiro ele falava empolgado sobre Popular Problems, mais recente álbum de estúdio. E no caminho para este foi contando sobre Live in Dublin, mais novo ao vivo. Descreveu os detalhes do show, e de como o velho Leonard está ótimo, se movimentando no palco, apresentando seus poemas com grandes arranjos e uma banda fabulosa, dizendo se tratar do registro ao vivo que mais lhe impressionou recentemente, ao lado do Quadrophenia Live in London do The Who.

Para poder citar Leonard Cohen fui pesquisar sobre ele, e me deparei com suas imagens atuais em seus 80 anos, terno, chapéu, barba branca e aparada, me remetendo imediatamente para a figura da capa do primeiro álbum solo do Marcelo. Sentado ao seu lado, lendo o jornal e, exceto pelos óculos, fiz uma associação imediata entre Cohen e o homem da capa de Marcelo Nova e a Envergadura Moral. Coincidência, delírio, ou delírio coincidente. Decida você.

Estar com o rei do rock é certeza de ouvir histórias, conhecer novas referências, rir muito, e aprender. Aprender mais ainda. Um verdadeiro prelúdio para o show, sem ingresso, nem lugar reservado, e que somente poucos privilegiados podem assistir.

Eu não costumo cometer nenhuma indiscrição com o que eu vejo e ouço com o acesso que tenho. Mas isso eu preciso contar. Os ponteiros já subiram e apontavam para uma da manhã. Era hora do show. Ali no camarim pude presenciar algo determinante para a sequência de tudo que aconteceria essa noite. Marcelo Nova reuniu os músicos do seu conjunto (algo que raramente acontece) e falou “improvisem muito, divirtam-se”. Falar isso para Drake Nova (guitarra), Leandro Dalle (baixo) e Célio Glouster (bateria) é o mesmo que dizer para um grupo de bárbaros saxões que não precisam deixar sobreviventes. Ou o mesmo que ordenar para Ademir da Guia, Djalma Santos, Cesar Maluco e seus colegas de Academia no Palmeiras golearem o adversário sem se preocupar em levar gols. Você pode imaginar o resultado…

Excelentíssimo Senhor Nova abriu a noite batendo o martelo e decretando a sentença: Ninguém Vai Sair Vivo Daqui. Condenados sem direito a recurso, seja pelo grande concerto de rock que se iniciava, seja pelo calor desértico, seja pelo concerto num calor desértico.

Logo de cara ficou evidente que todos seguiriam fielmente as “ordens” do seu líder, e já foi possível notar solos mais longos e muita “posse de bola”. Uma ousadia que só se vê em shows de jazz, num DVD de alguém do final dos 60 ou com ele. Afinal, se Marcelo Nova não vai até o Mountain, o Mountain vem até Marcelo Nova.

Mas é só começar uma festa das boas que um monte de gente aparece. Genival Lacerda foi pego num beco escuro de Gotham City. Genival, Jards, Batman e a gente, somos todos sem vergonha mesmo. E Eric Burdon foi convocado para ver o futuro, mesmo sabendo que ele é passado, recebido na pista de pouso por um dos mais belos solos que Drake já fez ao vivo.

Marceleza dedicou o show a Jack Bruce, o eterno baixista/vocalista do Cream, que recentemente nos deixou. Não tardou pra ele também aparecer. Spoonful (composta por Willie Dixon, mas brilhantemente revisitada por Bruce, Baker e Clapton) surgiu dentro de Quando Eu Morri. Retornei em minha memória para 2005, quando Marcelo me falava que o registro ao vivo que o impressionava naquele ano foi Cream – Royal Albert Hall (o reencontro dos três reis magos), da mesma maneira que falou sobre o álbum de Cohen nesta noite. Um mestre sempre prestando reverência aos mestres. Metalinguístico.

Leandro espancou seu baixo de maneira tão furiosa em Bomba Relógio Ambulante, que caso seu instrumento tenha nome de mulher, corre sério risco de ser denunciado na Lei Maria da Penha. Essa canção que traz o verso autobiográfico para mim: “tenho evitado estranhos, pois ninguém é mais estranho que eu”.

Coração Satânico afiou seu tridente de forma mais cadenciada. Provavelmente porque até o diabo precisa de um break com um calor daquele.

Drake e Leandro trocaram de instrumentos para Simca Chambord. Do banco da guitarra para o banco do baixo, enquanto Marcelo no volante saía da estrada para uma passada no drive through de Summertime Blues. Deixou pago um X-Burger e uma cerveja para Eddie Cochran, porque essa troca também não costuma acontecer com frequência.

Eu Não Matei Joana D´arc ganhou uma introdução de bateria executada por Celinho. E quando tudo se encaminhava para um final apoteótico, mas dentro de parâmetros normais, eis que Marcelo Nova jogou tudo pra cima novamente, saudando o inusitado, que esteve à sua direita durante toda a noite. Divertindo-se com a maneira que a canção começou, mandou parar e começar tudo de novo. Não poderia deixar de apreciá-la novamente, e assim foi feito. Contudo apenas mais uma vez não foi suficiente para saciá-lo. E pediu que tudo recomeçasse. E de novo, e de novo. Estava me divertindo quase tanto quanto ele, e perdi as contas de quantas vezes ela recomeçou. E a velha Joana pôs fim à noite. Essa canção, trabalho de escola, canção trabalho de escola.

E lá vou eu novamente me atrever a falar sobre o que ouvi no camarim ao final do último acorde. É que isso eu também preciso contar. Marcelo disse a Drake “foi o último e um dos mais insanos shows do ano”. Não há palavras que poderiam ser ditas de maneira a acrescentar algo sobre essa noite.

Mas quando pensava que tinha ouvido demais para uma noite apenas, minhas orelhas grandes tomaram mais um tapa. Marceleza anunciou uma grande novidade para 2015, que vai agradar em cheio os seus fãs.

Marcelo é autor do projeto de lei que regulamenta a regra sobre como quebrar regras. Mas essa noite em particular bateu o recorde de quebramento de regras em curta distância. Em forma, relevante, produtivo, imune ao desejo de repetir-se. Assim como Leonard. Assim como Jack. Assim como somente os deuses. Assim como Marcelo.

Diante desse encerramento espetacular, só resta-me despedir com meus sinceros votos para 2015: Feliz Ano Nova!

5 Respostas

  1. Ronaldo Belloti

    Mto bom o texto , não apenas pela descrição de mais uma noite de Rock’n’ roll como tb pela citações de outros gênios como Jack Bruce e Leonard Cohen .
    Um exclente ano pra todos nós !

  2. Charles Flanders

    Seus textos são ótimos pois você tem uma forma toda especial de descrever os shows do Marcelo. Uma maneira que apesar de muito pessoal deixa a todos nós leitores com a impressão de que também estávamos lá. Fora podermos conhecer um pouco mais da complexa cabeça de Mr. Nova graças a sua proximidade com ele. Parabéns e obrigado.

  3. Leonardo

    Tive o prazer de estar presente nessa aula de Rock’n Roll que Marceleza ministrou naquela noite, e só oque posso desejar é vida longa ao rei!
    Que ele possa ainda por muitos anos nos brindar com álbuns magníficos e shows/aulas como a que aconteceu naquela noite em São Caetano City!

  4. Já o sexto e sétimo parágrafos desse texto saborosíssimo são o ápice da inspiração poética, uma delícia de liberdade imagética e senso de humor cruel. Meu caro, a Língua Portuguesa precisa de mais escritores com você. Se esse fosse um mundo justo, seus artigos de ouro seriam publicados em todos os grandes jornais e revistas.

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