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25 outubro 2014

Resenha: Sesc Campo Limpo, São Paulo/SP

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Marcelo Nova vem realizando uma turnê comemorativa dos 25 anos do álbum A Panela do Diabo, que lançou junto com Raul Seixas. No último dia 11 de outubro foi a vez do Sesc Campo Limpo em São Paulo assistir essa celebração.

Como é bom ver Marceleza revivendo esse álbum. Motivos para isso não lhe faltam. A Panela do Diabo poderia estar em qualquer lista dos melhores álbuns do Brasil, na lista dos mais importantes álbuns do mundo, na lista dos melhores álbuns do Raul, ou mesmo na lista dos melhores motivos para ser reprovado no colegial. Eu reputo o Panela como o álbum onde o grande Raulzito teve seu melhor time de músicos, seus melhores arranjos, além do seu parceiro mais consistente.

Um fato notável sobre A Panela do Diabo é que nesse quarto de século jamais deixou de estar em catálogo, em todos esses mais de nove mil dias desde que foi lançado, nunca esteve ausente das lojas. Digo que se trata de algo notável pois estamos no Brasil, onde a miopia das grandes companhias é ainda mais steviewonderizada, o desprezo pela genialidade está estampado num luminoso da Paulista. Os critérios para se manter uma obra disponível é basicamente ter sido sucesso na trilha da novela. Caso você não tenha o seu Panela, vou te falar uma coisa, tire essa bunda ridícula da frente do computador, tire esse dedo lazarento do smartphone e vá já comprar o seu. Ou, se preferir, compre na iTunes Store clicando aqui.

Isto posto…

A caminho do show fui refletindo sobre como realmente haviam sido aqueles anos que precederam o lançamento desse clássico. São tantas perguntas. Como eram os dias desses dois físicos nucleares juntos? Do que conversavam? Como compunham? Como olhavam um para o outro e principalmente como eram olhados? Dois elétrons em alta velocidade, guiados pela bússola que aponta apenas uma direção, a mais difícil.

Vejo apenas um paralelo para comparar o encontro de Marcelo Nova e Raul Seixas. Com bilhões de francos suíços, os maiores físicos do mundo construíram o complexo centro de pesquisas CERN em Genebra, seu trabalho mais conhecido é provocar o choque de partículas subatômicas aceleradas, cujo impacto reproduziria a chamada “Partícula de Deus”, permitindo a compreensão do Big Bang e do início do universo como conhecemos. Nossos melhores candidatos à fogueira, com alguns milhares de discos, centenas de livros, alguns amores, whisky do bom, aceleraram todas suas partículas, e o choque desses dois átomos indivisíveis produziu A Panela do Diabo.

O dia começou quente, mas ao anoitecer a temperatura baixou rapidamente, e a cada grau Celsius que caía, mais lotado ficava o Sesc. Estavam reunidas as condições sine qua non para um grande concerto de rock. E assim foi. Marcelo Nova subiu ao palco pontualmente às 20 horas, e abriu os trabalhos quebrando dogmas e confrontando os papas com uma elétrica Be-Bop-A-Lula, numa grande sacada, afinal a abertura do Panela traz uma vinheta a capella dessa canção de Gene Vincent. Em seguida, Rock´n Roll veio junto com Câimbra no Pé. E vou logo dizendo, nunca vi Kopernico fazer aquilo que Chuck Berry faz.

Foto: Rodrigo Sevilio

O que se via ali era a comprovação da Terceira Lei de Newton, popularmente conhecida como Ação e Reação, Marceleza agia dominando o palco enquanto dava ainda mais vida às fantásticas canções desse álbum, e a reação da plateia era cada vez mais entusiasmada. Você Roubou Meu Video-Cassete e Best Seller, antecederam o single Carpinteiro do Universo, que Marcelo terminou alterando ligeiramente a letra “no final, sou carpinteiro… sim”.

Pesquisando, li que é atribuída aos americanos do Cheap Trick a iniciativa de executar ao vivo um álbum na íntegra. Não posso afirmar se é correto, mas o que tenho comprovado é que ninguém faz isso como Marcelo Nova. A confirmação veio na sequência, em outra ideia sensacional, a canção Nuit, escrita e cantada por Raul, ganhou uma leitura instrumental. Uma grande oportunidade para Drake “Einstein” Nova (guitarra), Leandro “Galileu” Dalle (baixo) e Celio “Fahrenheit” Glouster (bateria) mostrarem o porquê o rei do rock os chamam de “meu Conjunto”. Bom, deixe-me retificar, o que era pra ser uma versão instrumental foi cantada em uníssono pelo público. Enquanto Marcelo saía da linha de frente e se divertia na bateria. Um número, aliás, que sempre fez ao vivo ao longo de sua carreira.

Eu poderia escrever um tratado falando somente sobre a versão de Quando Eu Morri apresentada nessa noite. Se não foi a melhor que ouvi até hoje, certamente é uma das melhores. E posso lhe assegurar que já ouvi algumas. Enquanto Marcelo Nova tirava as vísceras de dentro da sua guitarra, foi percorrendo todos os estudos sobre electromagnetismo de André-Marie Ampère e revisando os trabalhos de condução elétrica de Georg Simon Ohm, sentimento, microfonia, performance, numa única equação. Banquete de Lixo surgiu no meio de tudo isso, mas diante da grandiosidade do que acontecia, ficou quase como sobremesa.

Século XXI, período que em 1989 parecia distante, foi muito cantada pelo grande público presente, me surpreendendo positivamente, pois não havia dimensionado até então o quanto essa bela canção era querida.

A primeira parte do show se encerrava com Pastor João e A Igreja Invisível, que ganhou uma catedral recém-inaugurada com o emulador de órgão na guitarra de Drake. Esse jovem de seis cordas de idade é um mestre dos timbres, e cada vez mais me parece um trabalhador do instrumento, cujo esforço recompensa todos que o ouvem. E como é bom ouvi-lo.

Marcelo Nova desmoraliza os catedráticos do show business ao se negar a fazer o teatro do bis, sem perder tempo saindo e voltando ao palco. A resposta do público foi “faça a coisa certa”, e foi o que fez, tocando a canção que leva o mesmo nome. E se Marceleza não deixou o palco, seu velho parceiro e amigo também não, e lá estava novamente Raul através das essenciais Não Fosse o Cabral e Aluga-se.

Joana d´Arc chegou trazendo a cortina que encerrava esse espetáculo. Muitos dos que ali estavam não chegaram a ver os shows da dupla Nova e Seixas, e essa turnê proporciona a oportunidade de assistir esse clássico vivo sobre o palco. Que essa celebração continue.

Apesar de a teoria dizer que dois corpos não ocupam o mesmo espaço, Marcelo Nova e Raul Seixas provaram o contrário. Dois corpos podem ocupar o mesmo espaço, assim como dois corações e duas mentes privilegiadas também podem. Ouça A Panela do Diabo, assista a um show dessa turnê e confirme você mesmo.

6 Respostas

  1. Ronaldo Belloti

    Excelente texto! Um disco que desde o seu lançamento a escuto pelo menos uma vez por semana.
    Item obrigatório pra quem gosta de rock’n’ roll , pois essa panela é um turbilhão fervendo de sangue , suor , lágrimas , entrega, paixão, dor , ironia, sarcasmo e o mais puro rock’n’ roll.

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